sexta-feira, 23 de março de 2012

Valor Econômico: Juro em queda e longevidade exigem mais planejamento

Depois de eleita, a presidenta Dilma Rousseff enumerou os objetivos de seu primeiro mandato. Entre eles, reduzir a o juro real, que é obtido através da subtração da taxa básica de juros pela inflação, para 2% até 2014. Se conseguirmos tal proeza, teremos uma taxa de juros semelhante às taxas de juros de economias mais desenvolvidas. A boa notícia vem acompanhada de um alerta: o brasileiro deverá planejar cuidadosamente sua aposentadoria, se não quiser ficar vulnerável na velhice. O artigo de Silvia Rosa, para o jornal Valor Econômico, demonstra bem como a queda dos juros pode afetar a sua aposentadoria complementar. Boa leitura.


Valor Econômico - 23/02/2012
Silvia Rosa | De São Paulo

A tendência de queda da taxa básica de juros no Brasil vai exigir dos brasileiros um planejamento ainda mais cuidadoso para a aposentaria. Com o desejo do governo de trazer a Selic para um dígito de maneira mais consistente - e a possibilidade de que isso traga a inflação para um nível superior aos 4,5% do centro da meta também de maneira mais permanente -, iniciar o quanto antes a formação de uma poupança de longo prazo para garantir uma renda complementar ao benefício pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) torna-se cada vez mais importante. Mais do que isso, porém, será preciso avaliar com atenção as opções disponíveis, sob pena de perder o poder de compra da poupança feita.

Levantamento do banco Santander mostra o impacto da queda da taxa de juros no valor das contribuições mensais dos participantes. Considerando o atual cenário de taxa Selic, em 10,5% ao ano, um participante com idade de 25 anos com um salário mensal de R$ 7,5 mil que quisesse manter a mesma renda após a aposentaria, com 65 anos, teria que fazer uma contribuição equivalente a 2% do seu rendimento. Uma queda da taxa de juros para 7%, no entanto, implicaria em aumento da contribuição para o equivalente a 5% da sua renda.

"E quanto mais tarde o investidor começar a contribuir com o plano de previdência maior será a parcela da renda que terá que ser comprometida", destaca Sinara Polycarpo, superintendente de investimentos do Santander.

Segundo ela, a contribuição de um valor fixo do salário de certa forma já garante a correção pela inflação, uma vez que os salários sofrem reajustes anuais. No entanto, o investidor pode optar por contribuir com uma parcela menor do salário no início da adesão e aumentá-la ao longo do período de investimento. "Até os 30 anos, geralmente o investidor tem mais gastos com cursos para aperfeiçoamento profissional, ou mesmo com a formação de patrimônio, como a compra da casa própria. Mais tarde, esses gastos tendem a diminuir, sobrando maior parcela do salário, que pode ser direcionada para aplicações."

Além do juro menor previsto, outra questão que contribui para elevar o desafio do planejamento da aposentadoria é o aumento da longevidade. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida média dos brasileiros em 2011 era de 73,5 anos. O IBGE estima que, em 2050, o Brasil terá cerca de 64 milhões de pessoas com idade acima de 60 anos.

Quem já contribui há pelo menos dez anos para um plano de previdência e quiser garantir a renda estimada inicialmente terá que aumentar a parcela da contribuição ou retardar a idade da aposentadoria, afirma Rodrigo Menon, sócio da Beta Advisor.

As alocações, no entanto, dependem do perfil de risco do cliente e do horizonte de investimentos. Para Menon, quanto mais longo o prazo da aplicação, maior exposição a risco o investidor pode ter. "Para garantir o rendimento de 1% ao mês que estava acostumado, o investidor terá que aumentar a parcela aplicada em renda variável", diz o sócio da Beta Advisor. Hoje, pela legislação, o máximo que um fundo de previdência pode aplicar em ações é 49% do portfólio.

Muitos planos de previdência já fazem a alocação de acordo com o prazo de investimento de cada cliente, como o produto "ciclo de vida" da Brasilprev. "O plano busca diversificar os investimentos em renda fixa e variável em função do objetivo do participante", afirma Guilherme Alexandre Rossi, gerente de negócios de alta renda da BrasilPrev.

Menon, da Beta, alerta que a maioria das seguradoras não cobra taxa de carregamento para aplicações de maior volume no médio e longo prazos em fundos de previdência. No entanto, as taxas de administração desses produtos costumam ser maiores que a dos fundos de investimento. "O custo é o que mais impacta na rentabilidade das carteiras de previdência, principalmente nos portfólios com perfil mais conservador, concentrado em aplicações de renda fixa", afirma.

Levantamento da NetQuant mostra que os fundos de previdência de renda fixa fecharam 2011 com ganho de 10,38%. Esse retorno ficou abaixo da variação do CDI no período, de 11,60%, e da rentabilidade dos tradicionais fundos de renda fixa, que apresentaram valorização de 12,47% no ano passado, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Apesar de o custo dos fundos de previdência ser muitas vezes maior que o dos fundos de investimento, o sócio da Beta cita algumas vantagens em aplicar nesses planos: o fato de não ter o desconto do Imposto de Renda (IR) semestral, conhecido como come-cotas, cobrado nos fundos de investimento, e a possibilidade de abatimento das contribuições no IR até o teto de 12% para os participantes que optarem pelo Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) e fizerem a declaração pelo modelo completo.

De acordo com Sinara, do Santander, essa vantagem fiscal é considerável quando se leva em conta o investimento pelo prazo de no mínimo dez anos. Um investidor que optasse por um plano Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) com desconto de 10% de IR, considerando a tabela regressiva, teria R$ 202 mil ao fim do período, enquanto num fundo de renda fixa o saldo seria de R$ 193 mil, devido ao efeito do come-cotas.

Uma outra opção aos fundos de previdência para garantir um rendimento regular é montar um portfólio de ações de empresas que pagam bons dividendos e apresentam fluxo de caixa estável. "Isso faz sentido principalmente quando se pensa em montar uma carteira para os filhos, em que o horizonte de investimento é de, no mínimo, 15 anos", destaca Menon, da Beta.

A preocupação com o futuro dos filhos também tem se refletido no mercado de planos de previdência. Na BrasilPrev, os chamados planos juniores, voltados para os menores de idades, representam 54% do total de 1,6 milhão de planos da carteira da seguradora, o que mostra a preocupação cada mais cedo dos pais em formar uma poupança de longo prazo para seus filhos, seja para financiar o estudos, uma viagem para o exterior ou ajudar na abertura de um negócio. O tíquete médio desses clientes, no entanto, tem sido de R$ 68, comparado com uma contribuição média de R$ 139 dos demais participantes.

Além disso, os fundos de previdência podem ser usados com a finalidade de planejamento sucessório. Isso porque o valor investido não entra no inventário e é repassado diretamente aos herdeiros.