quarta-feira, 16 de outubro de 2013

É possível ganhar acima de 1% ao mês no Tesouro Direto?

Em nosso artigo Rentabilidade e Risco Passado do Tesouro Direto recebemos vários comentários e perguntas de nossos leitores. Uma delas me chamou atenção. Gostaria de compartilhar com todos vocês:

"Sendo bem simplista, eis uma indagação: vocês acham que, com muito estudo, é possível auferir rendimentos acima de 1% ao mês com os títulos públicos? Entendo que há várias variáveis a serem consideradas, no entanto, gostaria de saber se há alguma possibilidade real desses ganhos para uma pessoa que se interessa pelo assunto e acompanha as oscilações diuturnamente."

Sendo bem simplista, é possível auferir rendimentos superiores a 1% ao mês com títulos públicos. Mas para isso você será exposto a muitos riscos e restrições. Explico.

No momento que eu escrevo (16/10/13), o título público com maior prêmio disponível para compra no Tesouro Direto, a NTN-F com vencimento em 1º de janeiro de 2023, tinha um prêmio de 11,65% ao ano (equivalente a 0,92% ao mês). Lembre-se que estamos tratando da rentabilidade bruta da NTN-F em questão.

Para se chegar à rentabilidade líquida, devemos descontar deste valor: as taxas pagas ao seu banco ou à sua corretora, que variam de 0% a 2% ao ano; a taxa da Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia, que como o próprio nome revela é responsável pela custódia e liquidação dos títulos públicos (0,30% ao ano); e o imposto de renda sobre o ganho de capital, cujas alíquotas variam de 22,5% a 15%, dependendo do prazo do investimento.

Portanto, não é possível hoje comprar um título público, carregar até o vencimento, e auferir uma rentabilidade superior a 1% ao mês.

Para tentar auferir rentabilidade superior, seria necessário tentar ganhar com o movimento da curva de juros e a marcação do preço dos títulos à mercado. De uma maneira bem simples, funciona assim: toda vez que os juros de mercado sobem, o preço dos títulos públicos (LTN, NTN-B e NTN-F) caem. O contrário também é verdade: cai os juros, sobe o preço dos títulos públicos.

A curva de juros não sobe ou desce necessariamente em movimentos paralelos. Ou seja, pode ser que os juros de curto prazo subam e os juros de longo prazo não subam (e vice versa). Bons gestores de renda fixa ganham dinheiro com esses movimentos.

Ou seja, para auferir ganhos superiores aos ganhos que você teria apenas com o carregamento dos títulos públicos até o vencimento, você teria que oportunamente adquirir títulos públicos no momento de alta dos juros e, quando os mesmos estivessem em queda, realizar o lucro. Parece simples, mais é quase uma ciência, que envolve conceitos avançados de matemática financeira e finanças (precificação de títulos, arbitragem, risco de mercado etc).

A estratégia acima implica em mais custos, já que demanda uma negociação mais frequente dos títulos públicos, bem como um aumento considerável do risco de mercado, já que você estará explorando as variações diárias dos preços dos títulos. E tal risco pode te levar a perdas consideráveis. Basta ver o rendimento das NTN-B neste ano de 2013 no nosso artigo Rentabilidade e Risco Passado do Tesouro Direto.

Outro impeditivo de tal estratégia é que somente às quartas-feiras o Tesouro Nacional (TN) recompra os títulos públicos dos investidores. Ou seja, de nada adianta você querer se desfazer dos títulos públicos em outro dia da semana que não seja uma quarta-feira. Só essa restrição acaba com qualquer pretensão de um “trader” de renda fixa.

Pessoalmente, desaconselho pessoas que queiram utilizar o Tesouro Direto para negociar títulos públicos com frequência. A plataforma do TN é indicada para os investidores de longo prazo que compram um título e carregam até o vencimento, independentemente das variações da curva de juros. É menos arriscado e menos custoso.

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Artigo escrito por Flávio Girão Guimarães.